ENTREVISTA

Namoro, Sexualidade e Deficiência

Nossa entrevista deste número é com a psicóloga Eneida Coutinho, que trabalha na APAE de Salvador e no Centro de Saúde Mental da Prefeitura Municipal, com crianças, adolescentes e adultos com deficiência. Agradecemos à Eneida pela gentileza e pela riqueza das informações partilhadas.

Segundo a psicóloga Eneida Coutinho, a sexualidade é uma dimensão humana que faz parte da vida de todas as pessoas. Os estudos mostram que a questão da sexualidade, do sexo na vida do homem, manifesta-se desde o momento em que se nasce. O interesse que o bebê tem em mamar, em chupar o dedinho, todo contato físico, carinho, tudo é sexualidade, que vai se desenvolvendo até chegar na idade adulta, quando a podemos exercer de uma forma mais completa, mais plena. Na verdade, só se consegue vivê-la bem, quando se está bem consigo mesmo. A sexualidade é um tema muito presente no discurso de adolescentes e adultos. Entretanto, "ainda nos dias de hoje, essa temática deixa muitas pessoas com vergonha, encabuladas, não é uma coisa fácil de se falar, mas fiquem a vontade para perguntar", diz Eneida, aos nossos alunos-entrevistadores.

Então... vamos lá!


- Por quê os pais não falam de sexo com os filhos?

- Mesmo os tempos tendo mudado, e este tema estar mais presente na televisão, jornais e revistas, mesmo que a relação dos pais com os filhos seja mais aberta, é sempre difícil falar sobre sexo. Muitas vezes, quando os pais estão sendo perguntados ou questionados, naquele momento eles não sabem o que responder em relação às dúvidas dos filhos, tendo que repensar a própria sexualidade. De alguma forma eles estão expondo a sua própria sexualidade e nem sempre isso é fácil. Até porque a educação que eles tiveram foi uma educação muito rigorosa, nem podiam imaginar fazer uma pergunta sobre essa temática a uma mãe. De certa forma, era considerado um desrespeito... Eles tiravam suas dúvidas entre os amigos e as amigas, pessoas da mesma idade. Ou seja, muitas vezes não tiravam realmente as dúvidas... por isso mesmo, é difícil para eles. Sempre falo para os pais como é importante deixar esse canal de comunicação aberto para os filhos, para falarem não só sobre sexo, mas sobre tudo. Embora existam coisas que os filhos não se sintam a vontade de falar com seus pais. Nem sempre nos sentimos a vontade para falar sobre tudo com o pai, com a mãe. Às vezes, preferimos mesmo é falar com um colega. Não é tudo o que a gente vai falar também, porque é saudável a gente ter a nossa privacidade. Mas é muito importante manter esse canal, através do qual as mães e os pais possam ouvir as questões dos filhos, e não se sintam mal se não souberem responder. Até mesmo uma criança pequena pode fazer perguntas que deixem alguns pais em situação difícil. E o importante, nesses casos, é manter a calma... É bom que os pais procurem informar-se para, nessas horas, poderem dar informações corretas para o filho, sobre como evitar uma gravidez, prevenir doenças, como conhecer seu corpo, etc.

 

- O que significa o namoro?

- O namoro é o encontro entre duas pessoas que se atraem de diversas formas, e não só fisicamente, mas também pelo jeito de falar, de olhar, que gostam das mesmas coisas, ou não. O que também é importante, pois, gostar de coisas diferentes, faz com que se aprenda com o outro, o que é legal. A gente não procura alguém igual a gente, mas que combine em algumas coisas, que também tenha coisas diferentes, o que faz a gente crescer. Namorar também é "beijar muito", fazer carinho, abraçar, partilhar... É tempo para se conhecer, um treino, para ter uma vida a dois mais prolongada, casar, ter filhos, uma família.

-Você conhece algum caso de uma pessoa sem deficiência se relacionando com alguém com deficiência? Como elas se sentiram?

- Já conheci algumas pessoas com deficiência que conviviam com parceiros que não tinham deficiência. A gente se sente frágil em qualquer relação, mesmo não tendo deficiência. Quando se gosta de alguém, quando a gente está interessada em alguém, existe a insegurança de não ser correspondido. Não há uma maior segurança só porque não se tem uma deficiência. Quando se gosta de alguém, existe o medo de ser rejeitado, todo mundo tem esse medo. A gente quer gostar do outro e ouvir do outro que ele gosta da gente também. Quando se gosta de uma pessoa, é importante aprender a conviver com o que ela tem de potencial e o que ela tem de dificuldade, mesmo que ela não tenha uma deficiência evidente. Ninguém é perfeito, todo mundo tem a sua dificuldade. O importante é que o casal confie um no outro, poder dizer o que sente, falar das suas inseguranças, do medo de não ser amado, do ciúme, que é normal. Isto não acontece só entre uma pessoa que não tenha deficiência e uma pessoa que tenha: a insegurança faz parte do ser humano, todo mundo tem medo de ser rejeitado.

- Por quê alguns pais ficam com medo quando seu filho com deficiência namora com uma pessoa que não tem deficiência?

- Creio que seja receio dos pais de que os filhos sejam magoados. Pensam que uma pessoa sem deficiência possa rejeitar o seu filho, ou se ponha numa posição de superioridade, se achando melhor. Os pais imaginam que vão proteger o filho. Que se o filho encontrar alguém que tenha questões parecidas com a dele, vai ser melhor compreendido. Mas isto não é regra: como falei, eu conheço pessoas com deficiência que são casadas com quem não tem deficiência. Tendo afeto, isso é o principal; as outras coisas, vão se arrumando.

- Sobre a vida sexual, quem começa mais cedo: o homem ou a mulher?

- A gente vive em uma sociedade machista, onde o homem tem direito a tudo e a mulher, principalmente em se tratando de sexualidade, a nada. Até mesmo no emprego: o homem e a mulher fazendo o mesmo trabalho, e ainda vemos o homem ganhando mais do que a mulher. Mas, isso também já vem mudando, ao longo dos anos. Muita coisa já mudou, mas os pais, com facilidade, deixam os filhos homens saírem e namorarem bastante, chegar mais tarde, etc. Quando, na verdade, tanto os meninos, quanto as meninas, precisam de orientação e de cuidado, não devendo ficar à-toa. O que a gente observa, são os meninos serem deixados mais "soltos". Já a menina, se falar de namoro, o pai briga, a mãe reclama. Com freqüência, o menino, quando fala em namoro o pai diz: muito bem, meu filho, namore mesmo, namore com a vizinhança toda... Por isso, é que terminam os rapazes começando a vida sexual mais cedo do que as meninas, porque a própria família os incentiva, e, às vezes, forçam os rapazes, que não se sentem nem seguros, nem preparados. Pois os rapazes também tem inseguranças.

- Duas pessoas com deficiência podem ter filhos normais?

- Vou contar uma história que me comoveu. Eu a ouvi em um congresso, de um psicanalista famoso. Nesse congresso se estava discutindo se uma pessoa com deficiência devia ser esterilizada. Este psicanalista defendia a posição contrária, ele não era a favor de esterilização, e contou que sua mãe nasceu em um hospital psiquiátrico, porque a sua avó tinha um distúrbio mental e que ela foi fruto de um relacionamento, no caso, entre pessoas com doença mental. Ele é uma pessoa normal, saudável e um grande psicanalista. È delicado falar sobre isso. Na verdade existem problemas da deficiência que envolvem questões genéticas, que devem ser estudadas, avaliadas. Quando um pai e uma mãe tem um filho com uma síndrome genética, eles vão para um especialista para estudar as chances deles terem um outro filho com o mesmo problema ou não. Às vezes, são pessoas cuja deficiência não vai comprometer em nada a possibilidade delas terem um filho. Elas podem ter um filho normal, sem problema nenhum, a depender da deficiência. Além disso, qualquer um pode ter um filho com deficiência, não só um deficiente. Para a decisão de se ter um filho, é preciso saber, também, se vai dar conta de criar, saber a responsabilidade que implica ter um filho. Ter filho é coisa muito séria.

- Por quê existem mães que tomam remédio para abortar? Isso pode causar uma deficiência?

- Existem pessoas que engravidam sem querer, não se previnem. Pois há formas de evitar uma gravidez. O aborto é uma agressão, não só ao feto, mas também ao próprio corpo da mulher. Existem métodos seguros para uma pessoa que não quer engravidar. Mas também existe gente que não se previne, que acha que, com uma relação só, não vai engravidar. Imagina que acontece com todo mundo, mas que não vai acontecer com ela... Aí, engravida, não quer o filho e toma remédio para abortar... O aborto é uma violência com o bebê e com a mulher. Existem casos de tentativas de aborto que causam deficiência, o que não quer dizer que toda tentativa de aborto vá resultar num bebê com deficiência e nem que esta seja a causa da maioria das deficiências.

- Por quê um jovem pode transar com outro jovem, mas não pode transar com alguém mais velho?

- Olha só, aí você está falando sobre preconceito. Na verdade, o que vai definir se a gente vai transar ou não com alguém, é o interesse mútuo, ou seja, é você estar interessado nela e ela estar interessada em você. O que se observa é que há preconceito, quando um homem ou uma mulher mais velhos se relacionam com um parceiro mais jovem. A idade não importa: o que importa é o amor. Mas a gente vê em reportagens, em revistas, sobre adultos que tem relação com crianças. Isso não é um relacionamento: é um abuso, é uma violência. Porque a criança ainda não está madura nessa fase do desenvolvimento, nem física, nem emocional e nem mentalmente. E uma situação dessas vai causar graves prejuízos para a criança, traumatizando-a.

 

 

Voltar à página inicial