ENTREVISTA

O nosso entrevistado desta edição é o professor de Educação Física, Silvio Roberto dos Santos. O professor Silvio trabalha nas APAEs de Salvador e de Camaçarí e é um dos organizadores das Olimpíadas Especiais no Estado da Bahia. Também pudemos contar com a presença da professora Simone Quintela, professora de Educação Física do CRPD. Queremos agradecer a ambos pela colaboração e esclarecimentos.

 

1- Porque as Paraolimpíadas não foram muito divulgadas na TV? Existe preconceito?

R - Vamos falar das Olimpíadas e das Paraolimpíadas. Para as Olimpíadas houve todo um envolvimento mundial, as escolas regulares fizeram projetos sobre Olimpíadas, para chamar a atenção, envolvendo toda uma proposta pedagógica. Foi uma boa divulgação e também a mídia fez este investimento de divulgação. Infelizmente, para as Paraolimpíadas não foi feito isto. Quem não tinha uma tv a cabo, não conseguiu ver os jogos paraolímpicos, que, por sinal, foram muito mais bonitos do que os jogos dos atletas dito normais. Nas competições das paraolimpíadas, existe uma maior dificuldade e a superação dessas dificuldades, a superação de limites. Entretanto, não é do interesse da mídia mostrar. São mostradas apenas jogadas em flash, uma coisas rápida. O povo ainda não despertou para a importância do portador de necessidades especiais na prática do esporte.
Em 1992, quando aconteceram as Olimpíadas de Sidney, foi oferecida uma barra de ouro para os atletas que conquistassem medalhas de ouro. Naquelas Olimpíadas ninguém conquistou a medalha de ouro, então a barra de ouro ficou sem ganhador. Logo em seguida, vieram as Paraolimpíadas, quando foram conquistadas medalhas de ouro. Mas a barra de ouro oferecida para os atletas olimpícos, não foi oferecida para os atletas paraolímpicos, e, com isto, acho que se evidencia um preconceito. Precisamos nos unir, nós profissionais da área e as pessoas com deficiência, para derrubarmos esse preconceito, que não será derrubado de uma noite para o dia, leva tempo. Infelizmente algumas pessoas na sociedade não tem despertado para a importância do portador de necessidades especiais.

2-Os atletas paraolímpicos mostraram que são melhores que os outros?

R- Exatamente. Nas Olimpíadas, o Brasil trouxe dez medalhas. Entretanto, somente o Clodoaldo, o nadador, nas Paraolimpíadas, conquistou seis de ouro, com muito esforço. Precisamos de políticas públicas que apóiem mais essa prática. Aqui na Bahia é muito precário o atendimento aos portadores de necessidades educativas especiais. Somente depois de muita luta, é que conseguimos ministrar um curso para professores da SUDESB. Eles argumentavam que não estavam preparados para receber o portador de necessidades especiais. Há dez anos atrás, nós apresentamos este projeto tentando capacitar professores da SUDESB e professores dos centros sociais urbanos e não foi aceito.

3- Como podemos participar das Paraolimpíadas?

A seleção para as Paraolimpíadas é feita através das Federações Brasileiras. A Associação Brasileira do Desporto de Deficiência Mental, as federações de deficiência visual, federações deficiência física. Estas pessoas participam de campeonatos regionais, nacionais e se classificam os que tem os melhores índices. Ou seja, os melhores tempos, por exemplo, em uma corrida, em provas de natação, etc., são classificados; isso nas modalidades individuais. O tempo entre uma Olimpíada ou Paraolimpíada e outra, é de quatro anos. Cada atleta tem que trabalhar, treinar, participar de campeonatos, para alcançar o índice para as próximas Olimpíadas ou Paraolimpíadas.

4 - Qualquer pessoa pode participar das Paraolimpíadas?

Existem "esportes de participação" onde todos participam, o que não quer dizer que todos terão condição de participar de "esportes de rendimento". Os que participam das competições paraolímpicas são os atletas de alto nível, são pessoas que dedicam um bom tempo para treinamento pensando em competições, com orientação de um técnico. Hoje, só não participam dessas competições, os portadores de deficiência mental. Mas nós estamos tentando que essas pessoas também possam participar dos jogos. Como essa é uma questão política, se faz necessária uma política para todos.

5 - Por que Daiane dos Santos perdeu nas Olimpíadas?

Daiane veio de uma camada mais pobre da população e teve muita dificuldade para treinar. Os brasileiros jogaram todo o peso da obrigação de ganhar medalhas em cima dela e ela não teve estrutura emocional, ela foi "sufocada". Mas Daiane é uma excelente atleta e tudo tem seu tempo: nós devemos conhecer e respeitar esse tempo.

6 - Como eu posso participar das Paraolimpíadas?

Você não deve se preocupar em ser um atleta paraolímpico, mas em ter o esporte como parte da sua vida. Tê-lo como "propriedade cultural" e chegar aos 30, 40, 50, 60 anos praticando esporte. Algumas vezes o atleta é preparado só para ganhar medalhas e, quando perde, ele pára de participar. Então, o atleta tem que estar sempre trabalhando; a participação, o ganhar medalhas, é uma consequência.

7 -Uma pessoa com deficiência pode ir para uma academia?

Independentemente de possuir alguma deficiência ou não, qualquer pessoa tem que passar por uma avaliação médica. Se esta pessoa tem algum problema físico, o ortopedista, ou o fisioterapeuta, tem que estar acompanhando. A partir do laudo ou histórico médico, o professor de Educação Física vai ministrar os exercícios. Ele vai saber indicar o exercício correto, qual a quantidade de carga conveniente, etc.

 

8 - Porque a pessoa com deficiência mental não pode participar das Paraolimpíadas?

Existem regras que não contemplam as pessoas com deficiência mental. Segundo essas regras, elas teriam, fisicamente, mais possibilidades, mais oportunidades, que as demais. Mas, também, a quantidade de pessoas com deficiência mental é bem maior.

 

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