ENTREVISTA

Nossa entrevista nesta edição é com o  professor João Bosco Santa Rosa, coordenador do CETIN (Centro de Tecnologia de Informática) do Instituto de Cegos da Bahia. O professor Bosco é cego de nascença e utiliza o computador para o aprendizado e desenvolvimento de seus alunos com deficiência visual. Atualmente também é presidente da ABC, Associação Baiana de Cegos.

Foto do professor João Bosco
novembro/2005


Obrigado, professor Bosco, por sua colaboração
 e pelos conhecimentos transmitidos!

 

- Como você trabalha no computador?

Em primeiro lugar, para que o cego trabalhe no computador, ele deve ter o domínio do teclado desse computador, da datilografia. Para o cego, a datilografia é importante para que ele saiba onde estão situadas as teclas. Há uma quantidade grande de teclas. É necessário saber qual o dedo responsável por cada uma delas. Por exemplo, o dedo mínimo da mão esquerda é responsável pelas teclas "A", "Q", "Z" e "1". Isso se aprende no curso de datilografia e, para ter o domínio do computador, inicialmente é necessário que se saiba exatamente isso. Aí então, não é preciso enxergar para fazer a identificação das teclas. As pessoas perguntam se o teclado deve estar em Braille. Não é preciso. Os únicos destaques, e que estão presentes em todos os teclados, são umas marquinhas em alto-relevo nas teclas "F" e "J", e no número "5" do teclado numérico. Esses sinais servem de referência para a localização de qualquer tecla. Com o treinamento, a digitação se torna automática e os dedos localizam sem problema as teclas que se deseja pressionar. Por isso, nesse primeiro momento, o aprendizado da datilografia é muito importante para o aluno com deficiência visual.

Foto do Professor João Bosco com o grupo de entrevistadores

- Qual o programa que você usa para adaptar o computador para o cego?          

Usamos os Leitores de Tela. Existem vários deles, como o Dosvox, que eu considero como que "a porta de entrada" para  que o cego possa usar o microcomputador. Existe também o Bridge, o Virtual Vision, o Jaws e outros. O Dosvox foi desenvolvido aqui no Brasil, na Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e o Virtual Vision foi desenvolvido pela MicroPower, também no Brasil. Já o Jaws é um programa norte-americano. Esses programas utilizam a voz  e fazem a leitura do que está presente na tela. Leitura de tela significa transcrever, transportar, para o áudio, tudo aquilo que está presente na tela do computador. Ou seja, o cego escuta o que está escrito na tela do computador. Isso permite que eu visite sites na internet, que possa voltar e ler uma palavra que não entendi, etc. Através de comandos pelo teclado, posso "navegar" nos textos e ouvir as palavras que foram escritas. E, atenção! Leitor de Tela não é o mesmo que "comando de voz", através do qual a pessoa fala e o computador executa. Com os Leitores de Tela o computador só lê o que foi escrito. Além dos softwares Leitores de Tela, existem também os softwares transcritores Braille. Esses softwares pegam os textos comuns e os transcrevem para o Braille, podendo ser impressos em impressoras Braille.

- Qual é o interesse maior dos alunos hoje?

 Hoje, o maior interesse é navegar na internet.

-  Qual o computador que você usa?

 A configuração do computador que utilizo, não difere de qualquer outro computador comum, é a mesma. É imprescindível, entretanto, que no computador haja sempre uma placa de som, que hoje, normalmente, já faz parte da própria placa-mãe. Todos os softwares que nós utilizamos precisam de voz, de som.

  

Foto de parte do grupo de alunos -Como você inicia o trabalho no computador com a pessoa cega?

Primeiro, mostrando os componentes do computador. O que é o teclado, o aluno pega o teclado, o que é o monitor, o mouse, a CPU, etc. É o primeiro momento. Quem enxerga, já vê o computador. Para a pessoa que não enxerga, é necessário ser bem detalhado, minucioso, tocar, pegar, cada componente do computador.


- Você trabalha somente com crianças com deficiência ou também com as pessoas ditas "normais"? 

Como professor, eu trabalho com crianças e adolescentes com deficiência visual. Existem, vocês sabem, diversos tipos de deficiência: física, auditiva, visual, etc. No caso da deficiência  visual, existem dois grupos: no primeiro grupo está a categoria chamada de baixa visão, quando  a pessoa enxerga pouco. O segundo grupo é o grupo classificado como cegueira total, que é o meu caso. Eu trabalho com os dois grupos.

- Como a gente pode participar da Associação Baiana de Cegos?

Você se cadastra e passa a ser sócio. A Associação fica na Rua Mesquita dos Barris, nº 40, aqui em Salvador. A Associação Baiana de Cegos é voltada mais diretamente para a conquista da cidadania, para a busca de  meios para inserir as pessoas com deficiência visual no mercado de trabalho. Oferece sempre cursos de  teatro, de xadrez, informática, cursos de massagem, câmara escura para  trabalhar com radiologia e telemarketing. É interessante, nos cursos, que existe sempre um módulo que trata exclusivamente da questão  da cidadania. Temos também espaço para  esportes, Futsal, Judô, além de alguns sábados culturais, com  palestras, etc. 

- Como você se formou e se tornou professor?

Eu sou natural de Sergipe e, na época em que nasci, não existia nada em relação a informática, a Tecnologia Assistiva, etc. Eu vim para a Bahia com 3 anos de idade. Os meus pais, que eram pessoas simples, souberam que existia, aqui na Bahia, o Instituto de Cegos da Bahia, onde hoje eu trabalho com as tecnologias. Neste Instituto eu fui alfabetizado, aprendi o Braille e segui normalmente no ensino fundamental. Fiz curso de eletricidade no Senai e, a seguir, fiz o concurso da Petrobrás. Cursei também eletrotécnica na Escola de Engenharia Eletromecânica da Bahia. Na Petrobrás, iniciei com eletricidade e depois fui para a área de informática. Depois que me aposentei na Petrobrás, fui trabalhar no Instituto de Cegos e, hoje, estou cursando Administração de Empresas. Por conta de tudo isto, procuro passar um pouco da minha experiência para as outras pessoas.

- O que é o Braille? 

O Braille é um sistema de escrita criado por Luis Braille, que ficou cego quando criança. É composto de unidades que podem conter até 6 pontos e que, combinados em posições diferentes, formam o alfabeto e os números. São  63 combinações diferentes. Por meio delas, podemos expressar também símbolos matemáticos, químicos, pontuação, etc.

Foto de parte do grupo de alunos

- Eu assisti a um filme chamado "Fúria Cega", no qual o personagem principal ficou cego depois da guerra, e ele lutava artes marciais. Isso é possível?

Nem tudo o cego pode fazer. No esporte, o Judô é uma atividade legal, pois é corpo a corpo, você sabe onde o seu oponente está. Se for solto, como no Karatê, aí já fica mais difícil: como vou saber quando o cara vai chutar, se no meu queixo ou em outro lugar?... :-) O Futsal também é possível, pois  a bola pode ter guizos. Você ouve onde a bola está. A platéia deve ficar em silêncio e os dois goleiros devem enxergar, para ajudar a orientar os times. A natação também é possível.

 - Você acha que a novela América, que fala da pessoa com deficiência visual, pode ajudar a sociedade a discriminar menos?

Esta novela, em termos de esclarecimento da população, ela é muito bem-vinda, pois a televisão é um meio que atinge a muita gente. Sem dúvida, a novela é muito bem-vinda, entretanto, precisamos ter cuidado. O personagem cego "Jatobá", vivido pelo ator Marcos Frota, não representa a maioria dos cegos do nosso país. O Jatobá é um cego que tem condições financeiras boas, que pode comprar todas as tecnologias possíveis. Mas a realidade, na maioria do país, não é esta. Na maior parte dos casos, são pessoas carentes, que não  tem acesso  a tudo isso. Só algumas vezes, através da ajuda de instituições. As tecnologias ainda são caras, o cão-guia é muito interessante, mas é muito dispendioso para adquirir e manter, etc.

- Como você consegue andar sozinho na rua ?

Para a pessoa que é cega existe um curso chamado "mobilidade", no qual você aprende a usar a bengala, entre outras coisas. Existem técnicas para isso. Por exemplo, se eu avanço meu pé direito, devo avançar a bengala no lado esquerdo; se eu avanço o pé esquerdo, devo avançar a bengala no lado direito, fazendo, assim, movimentos de varredura, procurando obstáculos. Quando estou andando na calçada e quero atravessar a rua, peço a alguém para ajudar-me a atravessar. Podem existir, também, "pistas táteis", que são tijolinhos especiais no chão, que ajudam na orientação, ou sinais sonoros, e outros recursos que, se adotados, podem ajudar muito na orientação para o deslocamento do cego na rua. E as comunidades devem eliminar as barreiras e obstáculos, para permitir a acessibilidade e a autonomia das pessoas com qualquer limitação ou deficiência.

O professor Bosco demonstrando aos alunos como fazer uso correto da bengala

- Você se sente discriminado na sua faculdade ou quando faz lazer com a sua família?

A sociedade como um todo discrimina, mesmo com os diversos avanços, tecnologias, etc. Vou lhes contar um fato ocorrido há pouco tempo, para exemplificar. Fui ao banco com o meu filho e a moça do caixa virou para meu filho e perguntou: "a agência dele é esta mesmo?" E eu brinquei e disse para o meu filho: "diga a ela que é esta mesmo..." Ora, eu sou cego, mas não surdo... Por que, então, não perguntar diretamente para mim?... Por mais que a gente explique, faça palestras, as mudanças são lentas, o desconhecimento, a ignorância e as discriminações continuam existindo. Porém, a gente tem que continuar insistindo.

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