ENTREVISTA
Nesta
edição, a temática da nossa entrevista é "DROGAS E
ALCOOLISMO". Para abordá-la, convidamos a Terapeuta
Ocupacional Ana Letícia Cordeiro Sales, que
trabalha há quatro anos no Centro de Acolhimento e
Tratamento de Alcoolistas (CATA), das Obras Sociais Irmã
Dulce, em Salvador, Bahia. Agradecemos a Ana Letícia por
sua disponibilidade e por esclarecer diversas dúvidas
nossas.
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Abril/2006
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- Como surgiu o
CATA?
O CATA surgiu por uma demanda muito
grande da comunidade, que necessitava de um centro específico para tratar de
pessoas com dependência do álcool. Nos centros hospitalares estava havendo uma
superlotação dessas pessoas, que não contavam com uma abordagem específica à sua
problemática. O CATA, portanto, tem uma equipe que desenvolve esse trabalho com
os pacientes que tem problemas com o uso do álcool. A equipe é formada por
psicólogo, terapeuta ocupacional, assistente social, psiquiatra, médico clínico,
nutricionista, enfermeiro, ou seja, uma equipe multidisciplinar para trabalhar
com esse tipo de paciente.
- E como funciona
o CATA?
O CATA atende a 12 pessoas por dia.
Nós não temos uma lista de espera nem fila, e atendemos de segunda a sexta-feira
pela manhã e nas segundas à tarde. Temos uma demanda grande mas conseguimos atender a todos os que
chegam. Todas as pessoas que chegam passam pelo médico psiquiatra. O médico
psiquiatra vai fazer a primeira avaliação e vai detectar se a pessoa tem o
perfil para fazer tratamento lá, ou não. Se tiver, existem dois tipos de
tratamento: o ambulatorial e o internamento. O internamento é para as pessoas
que não estão conseguindo parar de beber. Então, elas são internadas entre 15 a
20 dias para fazer a desintoxicação, ou seja, desintoxicar o organismo do
álcool. Entretanto, se a pessoa já tem um tempo sem beber, já conseguiu fazer
uso da medicação, então ela vai para o ambulatório, onde ela não necessita ficar
internada. No atendimento no ambulatório há o tratamento em grupo e o tratamento
individual, quando são atendidos pela equipe, sobre a qual já comentei com
vocês.

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- Aquelas pessoas que não
conseguem seguir o tratamento, podem voltar para iniciar
um novo tratamento?
Quando o paciente volta
para casa e ainda continua bebendo, ele provavelmente
terá que voltar e poderá ficar internado para continuar
o trabalho lá dentro. Entretanto, também acontece dessa
pessoa continuar o atendimento no ambulatório, mesmo
ainda estando bebendo. Ainda assim, é possível trabalhar
com ela. Pois a opção pela internação depende de cada
pessoa. Não se pode internar uma pessoa contra a sua
vontade. Ainda diante de uma recusa de internamento é
possível fazer outro tipo de tratamento. A gente começa
pelo tratamento no ambulatório e observa-se a resposta
dessa pessoa. Mas se ela percebe que não está
conseguindo ficar sem beber, a gente conversa com ela e
explica que, nesse caso, o melhor é a internação.
- Quando uma pessoa
está viciada, ainda é possível parar?
Sim, é possível.
Porém, com qualquer droga, quando a pessoa está viciada,
ela está dependente dessa droga. Então, quando essa
pessoa começa a tentar parar de consumir essa droga,
ocorre o que é chamado de crise de abstinência.
Ou seja, ela começa a ter sintomas e o organismo começa
a reagir. Ela já está tão acostumada com aquela droga
todos os dias, que, quando pára, o organismo começa a
reagir. Quais são essas reações quando a dependência é
do álcool, por exemplo? A pessoa pode ter crises
convulsivas, alucinações, ouvir vozes, ver vultos. Tem
tremores, não consegue fazer as coisas direito, porque
fica tremendo. A pessoa tem náusea, começa a vomitar.
Portanto, existem diversos sintomas quando a pessoa
dependente pára de fazer uso do álcool. Por isso, é
difícil. Porque se ela continuar a fazer o uso, ela não
tem essa crise de abstinência, esse desconforto. Então,
para essa pessoa é difícil parar de beber ou de usar uma
droga, porque ela tem esse desconforto no corpo. Por
isso, quando a pessoa está numa fase crônica, a gente
pede para internar, porque tem toda uma equipe de apoio,
e se ela tiver uma crise convulsiva, tem uma equipe ali
para dar assistência. Se estiver ouvindo vozes ou vendo
vultos, ela vai ter uma medicação adequada para não
sentir esse desconforto. Entendem porque é difícil?
Porque o organismo começa a pedir essas substâncias,
para não sentir os sintomas.
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- O álcool e o cigarro são drogas.
Então, porque as pessoas usam em qualquer lugar e hora?
O cigarro e a bebida são as
chamadas drogas lícitas, são drogas que são
permitidas pelas nossas leis. A nossa lei permite que
essas drogas sejam vendidas e sejam consumidas, havendo
apenas pequenas restrições e controle. Por exemplo, a
frase nos maços de cigarro: “Fumar é prejudicial à
saúde”. As outras drogas como a cocaína, a maconha,
etc., não são legais, e, portanto, não podem ser
vendidas e não podem ser consumidas
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- Por que as pessoas
que bebem querem, às vezes, bater na mulher, e, outra vezes, até se matar?
Esta reação é
indicada pela própria personalidade da pessoa. Quando esta
pessoa fica agressiva frequentemente é porque ela já tem uma
tendência a esta agressividade. A droga, o álcool, só faz
exacerbar esta agressividade. Às vezes a agressividade está
contida nesta pessoa e com o uso do álcool esta agressividade é
liberada. Geralmente a pessoa intoxicada que tenta o suicídio já
traz essa tendência, esse perfil.
- Por que essas pessoas muitas
vezes se alimentam mal?
O álcool, por exemplo, lança ao
nosso cérebro a falsa informação de que o nosso organismo está alimentado.
Então, a pessoa não tem vontade de se alimentar.
- O que acontece quando a pessoa
consome muito álcool?
Uma série de complicações. Quando a
pessoa ingere muito álcool, com frequência, primeiro essa pessoa poderá
ficar desidratada, poderá ficar anêmica, porque não se alimenta direito, tudo
isso acarretando uma série de problemas clínicos. Pode ocorrer, por exemplo, uma
baixa no sistema imunológico e a pessoa fica suscetível a pegar doenças muito
mais facilmente. Enfim, são várias as complicações que podem acontecer com essa
pessoa. Além das consequências sociais, as dificuldades para manter um emprego,
problemas com a família, etc.
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- O que pode acontecer com a
família de um paciente que bebe?
No CATA nós também atendemos
os familiares dos pacientes. Temos o tratamento do
familiar e o tratamento do paciente. Temos casos
em que o paciente não está mais com a gente, mas o
familiar continuou a fazer o tratamento.
Frequentemente, o familiar também adoece, ele precisa
dessa ajuda. O terapeuta familiar vai analisar cada
caso, verificando se o problema do paciente pode ter
gerado um problema na família, ou se problemas na
família podem ter reflexos no alcoolismo do paciente.
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Quando é que uma pessoa pode ser considerada uma alcoólatra?
Quando a pessoa não
tem mais controle sobre o uso que faz da bebida, quando a pessoa
começa a beber e não consegue parar. Até mesmo quando bebe
pouco, mas tem que beber todos os dias. Existem diferentes tipos
de alcoolismo, tem aqueles que bebem todos os dias, aqueles que
bebem todo final de semana, tem aqueles que se programam para
beber de mês em mês. Então, essas programações podem ser um tipo
de patologia: às vezes levam a que a pessoa só pense na bebida.
E isto já é uma programação doentia, isto já é considerado
alcoolismo.

- Como a sociedade pode
ajudar nessa problemática?
Em Salvador, o CATA é o único centro
de referência que atende problemas de alcoolismo de forma totalmente gratuita
(100% SUS). Existem poucas pessoas que fazem este trabalho e que divulgam
este tipo de problema, que é um problema de saúde pública, que está presente no
mundo todo. Então, como podemos ajudar? Primeiro, na nossa casa, informando
sobre os males causados pelo álcool, sobre o que acontece com a pessoa que faz
uso do álcool ou outras drogas, sobre por que não fazer uso do álcool ou droga.
Muitas vezes, a pessoa, quando faz uso da droga, diz que fica bem, feliz.
Entretanto, só com o passar do tempo é que percebe que vai se tornando
prejudicial, e a pessoa não consegue mais largar sozinha. Vocês também podem ser
os multiplicadores na sua escola, entre os amigos, etc. A sociedade toda pode
ajudar na prevenção.
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